Quando a poluição dá uma trégua

Hoje, após muito tempo nos escondendo da poluição, pudemos colocar o nariz (sem máscara) lá fora. Foi emocionante.

Como sempre, demoramos a sair de casa, o que nos roubou horas de passeio – sem falar do trânsito para chegar no Seoul Forest – até agora, meu parque preferido no mundo todo! Ia até linkar aqui o post de quando fomos lá pela primeira vez, há um ano, mas não encontrei, simplesmente porque não escrevi um, me limitando às fotos no Instagram. Grande erro que precisa ser corrigido.

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Anyways, quase um ano depois, voltamos e apesar de não termos conseguido percorrer nem um décimo do parque, foi bem gostoso.

Em breve voltaremos, dessa vez preparados para passar o dia (já até andamos comprando o kit “korean style weekend”, também conhecido como kit farofa, rsrsr – aguardem!


Em tempo: a última foto mostra o Vivi, segundo antes de descer a rampa e ter seu skate acertando em cheio o tornozelo de um coreano desatento, pai de uma coreaninha que minutos antes, teve seu picolé arremessado longe pelo mesmo skate (não me pergunte como). Depois do ataque involuntário duplo, tivemos que nos retirar, antes que o skate acertasse a mãe da garotinha e nossas fotos fossem espalhadas pelo parque com a legenda: “cuidado: olhados perigosos!”

Sotaques e situações

Ser fluente em inglês é uma coisa, entender sotaques fortes é outra completamente diferente. Arrisco dizer que todo estrangeiro tem sotaque, uns (muito) mais do que outros. Aliás, pensando bem, todo mundo tem algum sotaque, afinal, as diferenças existem até mesmo dentro de um mesmo país. Já ouvi tantas histórias de americanos que não entendiam australianos… E não é má vontade, não, a verdade é que, para muitos, compreender sotaques não é algo natural.

Pra mim, definitivamente não é.

Noutro dia, estava eu posta em sossego, esperando o Nickito sair do after school, quando a mãe indiana de um amiguinho indiano do Vivi se aproxima e me pergunta alguma coisa.

Sério, pedi que ela repetisse CINCO VEZES.

Só da quinta vez entendi o que ela falava. Da quinta vez! Compreende a gravidade da situação?

Eu entendo até muito bem o sotaque coreano (se bem que noutro dia, quando uma mãe coreana me ligou, I struggled a little bit, nem tanto pelo accent mas pela maneira de se expressar), mas o sotaque indiano pra mim é dificílimo. Eles falam work, eu entendo walk – já viu, né?

Mas neste caso específico, além do sotaque fortíssimo, a escolha de palavras não ajudou:

“how long are you going to sit?”* .

Que raio de pergunta é essa???

Levante, tirei os óculos, olhei no fundo dos olhos dela e pedi pra repetir. Cinco vezes. Até que enfim entendi que ela queria saber até que horas eu ficaria ali.

Tenho certeza que ela acha que não entendo bem inglês.

Você acha que eu evito conversar a sós com ela? Sim ou com certeza?

Pois bem, nesse Spring Break não tive como escapar.

Atendendo a pedidos desesperados do primogênito, organizei um play date no Champion 1250, um sports center para crianças. O combinado era largar os moleques lá e voltar para pegá-los duas horas depois, dessa maneira, escaparia da conversa tensa e ainda  faria umas comprinhas, maaaaas, minha amiga indiana resolveu dar um voltinha comigo pra bater papo (claaaaaaro, rs), aí já viu, né? Eu tive que colocar toda a minha atenção em cada palavra que ela pronunciava :D. Resultado, acabei não conseguindo ver  quase nada e o pouco que vi, não pude comprar porque “Muito caro aqui, você tem que ir no Dongdaemun!”. Okay, eu sei que no Dongdaemun é mais barato, afinal é um mercadão popular, mas eu queria comprar ali, no shopping mesmo… oh well…

Mas no fim das contas foi bom ter passado essas 3 horas(!!!!) com ela. Assim pude acostumar meus ouvidos ao sotaque e expressões No final do dia, já quase não pedia mais pra repetir 😀

Só o Vivi pra me colocar numa situação assim, viu?


*além da pergunta ter um formato inesperado, a amiga fala extremamente rápido. Extremamente. Já viu, né? E eu me sinto soooo bad por sempre ter que pedir que ela repita 300 vezes a mesma coisa. Não, essa não foi a primeira vez.

 

Bolo de cenoura com cobertura de chocolate (versão do bem)

Aí, o spring break começou a ficar estressante, então ela foi pra cozinha e assou um bolo.

Pois é, Sprig Break não combina com índices altos de poluição. Não mesmo. Mas infelizmente é o que temos no momento: meninos em casa, sem poder colocar o nariz para fora, especialmente depois do ataque de asma que o Vivi teve na semana passada.

Não é pra qualquer um.

A não ser que você esteja na vibe de deixar as crias em frente à TV o dia todo, ou então por conta dos jogos eletrônicos, ter dois moleques super ativos dentro de um apartamento o dia inteiro é missão das mais estressantes.

Um dia levei ao sports center por horas, noutro levamos ao cinema, mas tem dia que não rola mesmo sair de casa, então, só mergulhando na cozinha, porque assar bolo é praticamente uma meditação e comer bolo, bem, comer bolo é muito bom 🙂

Aqui vai a receitinha adaptada para uma versão mais saudável do nosso tradicional bolo de cenoura:

Bolo

  • 3 cenouras cruas picadas;
  • 1/2 xícara de azeite (ou óleo de coco extra virgem, ou óleo de abacate extra virgem);
  • 4 ovos;
  • 2 xícaras de açúcar de coco não refinado (ou açúcar mascavo, ou demerara, ou xilitol);
  • Uma pitada de sal;

>> Bater os ingredientes acima no liquidificador, despejar numa tijela e acrescentar.

  • 2 xícaras de farinha de arroz integral;
  • 1 colher de sopa de  fermento;

>> Colocar numa forma untada com óleo de coco e levar ao forno médio (180 C) por 30 minutos ou até passar no teste do palito.

Cobertura

  • 7 colheres de cacau em pó orgânico;
  • 9 colheres de açúcar demerara ou mascavo;
  • 2 colheres de sopa cheias de óleo de coco extra Virgem (estado sólido);
  • 4 colheres de sopa de creme de leite de coco;

>> levar ao fogo médio até atingir o ponto de calda.

>> Desenformar o bolo ainda quente e jogar a cobertura, também ainda quente, por cima.

PS. Uso uma forma redonda de 25cm diâmetro com um furo no meio.

 


A foto ficou tremida, mal enquadrada e mal iluminada, mas o bolo acabou tão rápido que nem tive tempo de tirar outra.

Ela ataca novamente

É duro viu…

O inverno começa a se despedir naquele ritmo brasileiro de despedida depois daquele jantar entre amigos: dá beijinho, abraço e segue conversando até ser convidado a se retirar :O)

Estamos agora naquele momento em que ainda não é primavera, ainda não rola guardar os casacos, mas também não dá pra usar vestidinho. Estamos naquele momento em que a poluição atinge níveis incompatíveis com uma voltinha lá fora, porque nem as árvores, ainda peladas, conseguem dar aquela ajudinha básica na purificação do ar. Estamos naquele momento em que mesmo não estando aquela friaca absurda lá fora, não podemos sair de casa, nem abrir as janelas, não por causa do frio, mas por culpa da poluição, daquela poeira fina que atravessa a garganta, penetra os pulmões e faz a gente passar mal. Tosse, espirros, ardência nos olhos, ressecamento das vias respiratórias, dificuldade de respirar…. é dose, viu?

Semana passada, fui parar com o Vivi no hospital. O pobrezinho teve uma crise de asma sinistra, passou os últimos dias a base de antibióticos, antiestamínicos, corticoides… e refém do nebulizador. Para meu desespero, ainda não está 100%, mas pelo menos a crise passou.

Sou super contra essa chuva de remédios, mas há momentos em que ou é isso, ou é isso. Não há escolha, nem limão, nem alho, nem gengibre, nem própolis, nem chazinho mágico que dê jeito.

A semana foi dureza. Quase não preguei os olhos, vigiando o sono sofrido do primogênito. Nessas horas, sou muito grata por não precisar sair pra trabalhar na manhã seguinte, por poder ficar com ele o tempo todo, dia e noite, sem ter que justificar nada para ninguém…

Mas é duro, viu. Duro demais ver um filho sofrer pra respirar. Te causa falta de ar.

Adoro a Coréia, aprendi a adorar a Coréia, são inúmeras as suas belezas, mas essa poluição, muito mais do que o inverno cruel, me faz querer arrumar as malas e sair correndo daqui.

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Este fim de semana, a coisa ficou tão ruim lá fora que ficamos presos aqui dentro, reféns da poluição. Isso é tão irritante…

“Ah, Erica, por que vocês não saem de máscara?”.

Porque eu não quero arriscar. O susto da semana passada foi grande, não quero correr o risco do Vivi ter uma recaída e eu cair junto.

Aí, só nos restou fazer a tal limonada que a gente faz quando a vida nos dá limões. Nosso domingo começou com uma manhã musical para levantar o ânimo 🙂 E este foi o highlight do fim de semana :O|

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E o pior é que esta semana estamos no Spring Break, ou seja, os meninos não têm escola e não há muito o que fazer com eles, a não ser levar ao shopping (cosias que eles não curtem), ou play center que seja indoors, porque nem filme para a idade deles está passando nos cinemas – pelo menos não em inglês.

Só me resta rezar para vir uma chuva bem forte e limpar o ar nos paroxismos dias.

Call me crazy

Pode me chamar de louca (talvez eu seja mesmo), mas sabe aquela saudade antecipada que eu sinto das crianças? Então, comecei a sentir também de Seul.

(pausa para você se recuperar do choque – porque… né?)

Não, nós não estamos nos mudando novamente. Não que eu saiba, pelo menos. Mas visto que estamos completando dois anos de Coréia em agosto (e começaremos a pagar imposto em breve, o que torna estar aqui 18% menos interessante), já começo a ver a luz da mudança no fim do túnel. E quando eu digo “a luz da mudança”, que fique bem claro, não é como se eu estivesse ansiosa por ela, viu? Not anymore.

É verdade que o inverno é longo e cruel (pelo menos dentro de casa é sempre primavera). É verdade que a água do chuveiro acaba com minha pele e cabelos (por isso instalamos um filtro). E, principalmente, é verdade também que a poluição, Jesus amado, é irritante – literalmente, irrita olhos, pulmões, pele… e o psicológico também, porque, gente, ninguém merece viver sob um céu que raramente é azul, respirando um ar que faz o peito chiar (desconfio que aos 40, estou ficando asmática, tá bom pra você?). Mas ainda assim, ainda com essas mazelas que vêm junto com a experiência coreana, ainda assim, viver aqui me traz alegria.

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Meu vocabulário em coreano se resume a meia dúzia de palavras e nem essa meia-dúzia eu sei escrever (triste, mas não tenho motivação para aprender). Não leio as placas, não entendo nada; passo perrengue na hora de chamar um taxi pelo aplicativo – praticamente enfio meu telefone na cara de um passante na rua para falar com o taxista do outro lado; me comunico na linguagem quase universal dos gestos; me aborreço no supermercado, ou porque não encontro o que quero, ou porque encontro e o preço me atinge como uma facada; moro num apê beeeeem menor que a casa que morava na Australia, que não me permite receber a galera em casa como costumava fazer… mas ainda assim, acredite, desenvolvi uma apreciação, um carinho especial por esta cidade e vou , sim, sentir muita saudade dos anos que estamos passando aqui.

Aqui, nós nunca seremos locais, ainda que falássemos coreano perfeito, seríamos sempre a exceção na rua, porque tirando Itaewon, em todas as outras neighborhoods, ocidentais não passam despercebidos. E isso tem um lado bem chato e desconfortável, mas tem outro bem interessante. Por exemplo, se vamos a um restaurante uma vez e voltamos 3 ou 6 meses depois, não importa, lembram da gente.

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Me acostumei a entregar coisas com as duas mãos, ou com a mão direita, tendo a esquerda tocando levemente o braço direito (faço isso até no Brasil). Me acostumei a me curvar, ao agradecer ou saudar alguém. Me acostumei até com a “sopinha de água” que antes eu rejeitava. Me acostumei ao kimchi e ao tempero coreano. Me acostumei à vida aqui. E gosto dela.

São tantas situações interessantes que passamos diariamente na terra do kimchi, que dá a sensação que moramos aqui há muito tempo. O simples fato de sairmos para dar uma volta na rua, no parque, ou de irmos ao cinema, sempre nos faz experimentar algo inusitado. E é desse inusitado que vou sentir falta. Mas não somente dele.

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Vou sentir falta também as luzes e alegria de Sinchon, do agito das ruas de Hongdae, da peculiaridade de Yeonhui-dong, da vida que permeia os espaços urbanos o tempo todo. Vou sentir falta da expectativa pela primavera e da alegria que me causa a sua chegada. Vou sentir falta de ter uma montanha no quintal de casa e de andar pelas ruas e ouvir pessoas conversando sem ter a menor ideia do que elas estão falando (é quase como um barulho de rádio fora da estação, te faz desligar do que está acontecendo ao seu redor e se voltar pra dentro de você). Vou sentir falta da cordialidade do povo. Vou sentir falta de apreciar verdadeiramente um dia de céu limpo e azulzinho (coisa rara aqui) – já notou como a gente não valoriza as coisas simples da vida? We totally take it for granted. A Coréia vem me ensinando muitas coisas, mas uma das mais valiosas lições até agora foi a apreciação pelo invisível, pelo ar que eu respiro. Hoje, quando me deparo com um céu azul, fico feito criança deslumbrada, feito boba mesmo apreciando e repetindo: “olha que céu maravilhoso!”

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Mas de novo, não estamos indo a lugar nenhum. Não agora. Mas seja lá pra onde formos e quando formos, sentirei falta de Seul. Sentirei falta de seus incontáveis e maravilhosos parques, da sua organização, das suas regiões tão características.

Mas se não estamos indo a lugar nenhum, porque este post agora? O que deu em mim?

Ah, este post nasceu porque ontem chegamos aos 21 graus! Vinte e um freaking graus, ar puro e céu azul, que me convidaram a finalmente abrir as janelas e sair de casa para uma revigorante caminhada. Atravessei a montanha e fui até Sinchon só pra tomar um suco. A alegria de não precisar usar casaco era tão grande que tive que me segurar para não dançar ao som da música que tocava numa loja no meio da rua, ou de cantar junto, bem alto (cantei baixinho). Respirar fundo e não sentir o peito chiar, sentir os raios de sol batendo no rosto, ver aquele céu lin-do, me fez acordar de um transe e lembrar que a vida é boa e que ser feliz é simples. Basta temperaturas amenas e ar puro. A Coréia que me ensinou.

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Em tempo: O dia foi tão bom que, à noite, saímos os 4. Atravessamos a montanha para jantar, eu e marido a pé, e os meninos de skate e scooter. Ah, as coisas simples da vida… são as melhores.

O povo mais animado do mundo

Olha, brasileiro tem fama de animado (e somos mesmo), mas coreano, quando o assunto é esporte, pelo menos, caramba, dá um banho de animação no meu povo carnavalesco.

A experiência de assistir um jogo no estádio/ginásio aqui é imperdível. Não apenas a torcida é super animada e organizada e educada, mas todo o processo é intenso.

Logo que chegamos na Coréia fomos assistir dois jogos de futebol, um da seleção (que foi okay) e outro do time da cidade, que foi espetacular – não o jogo em si, mas a experiência do espectador. Sooooo much fun!

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No sábado, fomos, com uns amigos, assistir um jogo de basquete e, gente, que animação!

Antes de entrar no estádio, tinha cambista vendendo ingresso mais barato (umas velhinhas, acredita? hilário, rs) e um corredor de banquinhas com comidas típicas, que infelizmente esqueci de registrar.

Entrando no estadio, a animação era contagiante, a torcida toda meio que coreografada, todos sabiam o que fazer e em que momento fazer. As cheerleaders, os mascotes, os animadores, tudo sensacional, mas o mais bacana, além da euforia educadíssima da platéia eram as músicas que tocavam durante o jogo. Mais parecia trilha sonora de filme, em momentos de ação.

E os intervalos e time out? Às vezes rolava brincadeira, às vezes virava discoteca, com direito a jogo de luzes e o escambau.

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Talvez eu esteja desatualizada, mas os jogos de basquete e vôlei que fui no Brasil não chegavam aos pés da animação que é um jogo coreano. Basquete americano também, nem perto.

O jogo passou tão rápido que nem senti. Fiquei até triste quando terminou. Nosso time (Seoul Knights) venceu BTW 🙂

Mal posso esperar pelo próximo jogo. Seja lá do que for, tenho certeza que será animado.

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Valeu o engarrafamento pra ir e pra voltar. Na volta ainda tivemos o bônus de um sol poente lindo, apesar (ou por causa) da poluição.

Segura esse tempo, que tá passando rápido demais!

O tempo passa, o tempo voa e os meninos crescem numa velocidade ainda maior. Cadê meus bebês? Onde estão meus molequinhos? Vivi com 10 anos, Nickito com 7, meu Deus, por que tem que passar tão rápido?

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Fim de semana passado, a temperatura subiu, chegou a 16 graus, o que nos fez catar as crianças (enquanto ainda podemos) e levar pro parque. Demos uma paradinha no World Cup Park, que fica mais pertinho daqui de casa, mas logo seguimos em direção ao Olympic Park, beeeeem mais distante (graças ao trânsito), onde nunca havíamos ido.

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Nickito com sua scooter, Vivi com seu skate. Foi uma farra. Eles se divertindo e a mamãe se desesperando, até porque, o aprendiz de “ishqueitishta” tinha esquecido de levar o equipamento de segurança. Foi um tal de subir ladeira e descer em velocidade, que só vendo. E a cada descida eu, além de pedir pros anjinhos da guarda os protegerem, pensava: como eles estão grandes. Parece que foi ontem que aprenderam a andar… Mais uns anos e eles começarão a bater asas fora do ninho.

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Eu e minha saudade antecipada.

Que bom que ainda os tenho  (kind of) presos à barra da minha saia! Que bom que estou aproveitando e me divertindo com a diversão deles. É tão engraçada essa capacidade que uma mãe tem de ficar feliz só de ver a felicidade dos filhos, né não? Isso vale também pra tristeza, pro estresse, pra angústias… É como se a gente sentisse o que eles sentem. Já imaginou como ficarei se um dia eles tiverem uma decepção amorosa? O término do primeiro namoro! Ai, acho que não suportarei ver meus pintinhos sofrendo de amor…

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Mas enquanto o trem-bala não chega na estação da adolescência e dos namoricos, enquanto a vida me permite o privilégio (às vezes estressante, confesso) da bagunça e do barulho intenso dentro de casa o tempo todo, vou registrando as doces memórias, porque uma coisa é certa: O tempo passa, o tempo voa e os meninos crescem numa velocidade ainda maior.

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Deixo aqui registrado não apenas este pedacinho de sweet memory, mas principalmente minha gratidão pelas pequenas coisas da vida, pelos mais singelos momentos que enchem meu coração de alegria e me fazem respirar fundo e  sentir que tudo valeu/vale/tem valido a pena. Porque, não sei você, mas se eu pudesse voltar no tempo, não voltaria, não mudaria um nada, nem mesmo aquelas coisas das quais me arrependo/me culpo (e ó, não são poucas), porque acredito, de verdade, que a conjunção de todos aqueles fatores, de todas aquelas escolhas (conscientes ou não) me conduziram pra onde estou agora. E não tô falando da Coréia, rs, mas do meu universo particular.

Confissões de uma eterna mãe aprendiz

Nickito é um serzinho de personalidade extremamente forte e, como tal, quando cisma com alguma coisa, não há santo que o convença do contrário. É cabeça dura, teimoso, nada flexível. Tem que ser do jeito dele e pronto. Tem dias que nem a mais longa conversa o convence.

Uma mania que ele tem, sei lá porque, é de amarrar um casaco na cintura. Ele acha cool e não há quem o faça mudar de ideia – este é o lado ruim dele não ser nada Maria Vai Com As Outras e de não se importar nem um pouco com a opinião alheia (pelo menos quando o assunto é estilo, rs). Ele é o que é, gosta do que gosta e não tá nem aí se você gostou ou não. Claro que, como qualquer ser humano normal, adora receber elogios, mas pra ele basta estar do gosto dele. Reconhecimento é lucro, rs

Faça calor ou faça frio, ele sempre inventa de colocar uma jaqueta amarrada na cintura, e eu sempre, sempre, sempre peço pra tirar: “parece um macaco amarrado pela cintura!”, apelo (aliás, acho que isso era uma expressão que minha mãe usava). Ou ainda “ah, não, assim você não sai comigo”. Horrível, né? Confesso que agora, escrevendo, fico envergonhada… Mas veja bem, não é um moletonzinho, casualmente amarrado porque “tava frio, mas esquentou e eu não tenho que fazer com ele”. É um ato calculado. Até mesmo no colégio, ele tira a jaqueta e amarra na cintura, esteja o frio que estiver. Por mais que eu não goste, é seu fashion statement, sua marca registrada. E eu sempre reclamo, peço pra tirar.

Isso até ontem à noite, quando ele me entregou um desenho composto de três partes (na foto em destaque só aparece uma) e a que mais me chamou atenção foi : um menino (ele) com um casaco amarrado na cintura.

Esse desenho foi o meu wake up call. Senti meu rosto ficar quente. Shame on me.

Caramba, eu vivo falando pros meninos que eles não têm que ser o que todo mundo é, nem fazer o que todo mundo faz, nem ter o que todo mundo tem. Sempre enfatizo que as pessoas são diferentes, tem gostos diferentes, preferências diferentes, ideias diferentes… e essas diferenças precisam ser respeitadas, até porque, o mundo seria muito chato se todo mundo gostasse das mesmas coisas, pensasse, agisse, se vestisse, falasse  da mesma maneira. Sempre digo também que pouco importa o que os outros vão pensar, então, desde que você não desrespeite ninguém (porque seu direito termina onde o do outro começa, não é mesmo?), você tem que ser você mesmo. E aí, veja você, chega esse desenho e se auto esfrega na minha cara e me mostra que eu não estou respeitando um gosto muito evidente do meu filho, gosto esse que não faz mal a ninguém (a não ser a minha definição do que é ou não é ok vestir, ou a minha noção de estética). Olha, fiquei bem envergonhada.

O pior é que o desenho não era pra me mostrar isso. O contexto era totalmente outro, mas tudo o que eu enxergava ali era a minha falta de respeito com a maneira dele se vestir.

Que bom que acordei em tempo. Me policiarei mais para não ser tão crítica a ponto de não enxergar o limite de onde termina o meu direito (de mãe) e começa o dos meus filhos (de se expressar).

 

Meltdown

Ontem, Nickito teve um meltdown na hora de dormir. Eu ainda me surpreendo com a maneira que ele expressa suas emoções. Às vezes, se porta como uma criança da idade dele, às vezes como um bebê e às vezes como um pequeno adulto preso no corpo de um menino de 7 anos. Noite passada foi assim.

Após se recusar a almoçar conosco o curry de frango e vegetais delicioso que o papai havia preparado, ele passou o resto da tarde sem comer nada e só foi tomar um hot chocolate já era noite. Super saudável, né? Só que não.

Desta vez, resolvi não brigar e vesti a camisa do “quer comer, come, não quer, não come”, só pra fazer diferente.

Ele, como um bom cabeça dura, não deu o braço a torcer e não comeu nadinha além do café da manhã.

À noite, quando passei em seu quarto para o abraço de boa noite, ele estava lá encolhido na cama, agarrado com seu tercinho, rezando e chorando. Eu, como presidente do clube das mães desesperadas, senti meu coração quebrar em mil pedacinhos, instantaneamente, assim que vi aquela imagem. E tome de conversar até conseguir arrancar dele o motivo de tamanha tristeza.

“I am struggling with my life”, ele disse. Como assim, uma criança de 7 anos diz que está struggling with his life???? E ele continuou: “Look at my desk: it’s a mess! There are piles of books everywhere around my room. Everything is a mess. I can not get organized anymore. I can not eat well anymore.” Tudo isso dito entre soluços.

De fato, o bichinho estava struggling e seu comportamento durante o almoço de hoje foi seu pedido de socorro, que eu só compreendi quando presenciei aquela cena de antes de dormir.

Estaria mentindo se eu dissesse que isso aconteceu de repente. Venho notando, sim, impossível não notar, que meu menino organizado vinha se tornando uma criaturinha bem relaxada: roupas jogadas pela casa, quarto sempre bagunçado (arrumado somente por mim, 1 vez na semana, propositalmente, na esperança de incomodá-lo – sem sucesso). Até pro dever de casa, coisa que eu nunca precisei mandá-lo fazer, o bichinho começou a fazer corpo mole. E a alimentação? Nickito que era super orgulhoso de comer de maneira saudável, ele que fazia questão de levar somente frutas e vegetais pro snack no colégio e que brigava comigo quando eu também colocava uns biscoitinhos de arroz ou uns nachos… começou a querer enterrar o pé na jaca, ou melhor, no junk. Chegou inclusive a me dizer abertamente que não queria mais ser saudável, que queria, como todos os amigos, levar sanduíche de presunto e pão com Nutella pro colégio – e eu até deixei, por dois dias consecutivos, afinal, não tô aqui pra torturar ninguém…

Eu vinha tentando contornar as situações, amenizar as regras e, principalmente, não transformar essas mudanças de comportamento num big deal, mas ontem entendi que estava fazendo tudo errado. Nenhuma mudança de comportamento deve ser menosprezada.

Naquele momento, sentada na caminha dele, peguei meu molequinho no colo, abracei bem forte e disse que ele não se preocupasse, porque eu estava ali para ajudá-lo. Sempre. Que minha função mais importante era essa: cuidar dele e do irmão, ajudá-los em tudo o que precisassem. Disse que iríamos juntos arrumar o quarto, organizar os livros e manter tudo sempre no lugar.

Ao passo que conversávamos, ele foi se acalmando e, por fim, fez a última confissão do dia: “I am starving!”.

“Você quer que eu esquente o curry pra você?” perguntei.

“Sim.” ele respondeu.

Levantei, preparei um prato, esquentei e dei na boquinha. Sim, ele comeu todinho, aquele mesmo curry que, no almoço, ele disse odiar (sem nem ter provado).

Ai ai, não é fácil maternar, viu? Mais difícil ainda, quando, por outros motivos, você vive estressada e acaba não conseguindo ter clareza na hora de lidar com situações que poderiam ser simples, mas potencializam sua irritação.

Mas a gente vai aprendendo, evoluindo. Um passinho de cada vez.

Nickito já melhorou tanto, que eu mal creio que há um ano, dava os ataques que dava, totalmente out of the blue.

Como eu sempre digo, as pessoas são diferentes e por mais que você crie os filhos, em tese, a mesma maneira, eles têm essências diferentes, são seres humanos únicos e complexos e precisam ser conduzidos de acordo com suas necessidades. Muitas vezes, o que funciona pra um, não funciona pro outro, então é fundamental estar sempre aberta aos ajustes na condução dos filhotes. Cada vez mais, acredito que não há receita de bolo. Até porque, os ingredientes variam muito em cada pacotinho de gente.

Eu sigo tentando, sigo aprendendo e às vezes até acho que estou acertando. Tomara.

Bolo de fubá com gostinho de infância

Eu, como costumo dizer, sou carioca da gema, da clara e da casca, entretanto, meus avós maternos e paternos, apesar de terem vivido a maior parte da vida no Rio, são de origem mineira, sô! E toda minha família antes deles também é, logo, o sangue que corre nas minhas veias vem lá das Minas Gerais, onde, todos os anos eu dava uma passadinha, às vezes de uma semana, às vezes de um mês inteiro. E todas as vezes tinha bolo de fubá. Tá, em casa também tinha bolo de fubá, na casa da minha avó paterna também (na da avó materna tinha outras mineirices, como bolo de aipim, canjica doce, canjiquinha…hummm), mas pra mim, bolo de fubá, ou melhor, broa, como chamam os mineiros, lembra minhas férias na fazenda. Broa, pra mim, tem sabor de infância e traz à tona aquelas memórias que aquecem meu coração.

Lembro que na casa da minha bisa, era um entra e sai o dia inteiro  e Dona Niquita, como era conhecida, tinha sempre um pedaço de bolo saído do forno e um cafezinho passado na hora no coador de pano, servido com leite ordenhado naquela manhã. Os bolos e broas da minha tia-avó Stella tinham um sabor especial, sabor de férias.

Noutro dia, tava fazendo um bolo de banana pro Vivi, quando me bateu uma vontade louca de comer uma broa fresquinha. Não pensei duas vezes e, enquanto o bolo de banana estava no forno, preparei rapidamente a massa da minha broa.

Não vou dizer que ela tem aquele mesmo gostinho da que minha tia-avó fazia, mas uma coisa é certa, ela sempre me remete a minha infância 🙂

Se você quiser provar, anota aí (é sem glúten e sem lactose):

INGREDIENTES:

– 2 ovos;

– 1/4 de xícara de óleo de abacate extra virgem;

– 3/4 xícara de açúcar demerara;

– 1 xícara de fubá;

– 1/3 de xícara de farinha de arroz integral;

– 1 xícara de leite de coco;

– 1 colher de sobremesa de fermento em pó;

PREPARO:

Bata os ovos levemente (à mão mesmo), acrescente o óleo de abacate, o leite de coco e o açúcar e misture bem. Acrescente o fubá, a farinha de arroz integral e o fermento e misture novamente. Você pode acrescentar 1 colher de sobremesa de erva-doce (eu não tinha em casa), fica ainda mais saboroso. Leve ao forno pré-aquecido 180C por 30 minutos, ou até passar no teste do palito.

Dizem que fica uma delícia acompanhada de um cafezinho.

Mas ó,  cuidado para não comer tudo de uma vez.